quarta-feira, dezembro 26, 2007

Aos 10.

A vida é algo que está lá fora, muito longe desse passado que hoje a noite, debaixo das cobertas, sonhei ser meu presente. Nele, gerações de fantasmas estão argumentando e sendo ouvidos na mesa de jantar.

Ter 10 anos é uma prisão.

Escrevo a mim mesma um bilhete e o coloco dentro de uma garrafa de Mirinda, pra ver se jogado no mar de buscas é encontrado aqui ou no meu futuro por alguma certeza mais firme que resolva o caso.

Mas aos 10 anos, ninguém tem muitas certezas. Nem a que a gente as terá aos 20 ou 30. Me parece que pelos 40, com passado demais pra cimentar a gente no chão, a gente passa a ter.

Seriam assim certezas ou desistências?

Além do mais, se vc não malha, 40 é tarde demais.

O que sei é que com 10 anos ninguém joga a toalha.

Talvez porque nem sabíamos que tinhamos uma.


Foi com 10 anos o meu primeiro beijo. Foi no Fernando, um primo. Eu tinha os olhos fechados, e estavamos numa exibição de cinema improvisada no quarto da minha avó, com um rolinho de filmes da turma da mônica, que funcionava a base de vela e manivela, e não tinha pipoca. (Foi até bonito pra quem já desde os 7 escrevia histórias de amor complexas e sofredoras, tem uma logo aqui abaixo, pode procurar). Cinema de verdade mesmo só fui aos 13, pra ver Lua de Cristal, não comi pipocas, chupava balas retangulares enormes de frutas, lembro mais da de abacaxi, que era deliciosa. Aos 18 tive um namoro sério com um pão-duro que reclamava do preço da pipoca desses novos mega cinemas. Uma vez ele me fez fazer pipoca em casa e levamos a nossa própria para a sessão, mas não consigo comentar, muito menos lembrar do sabor. Com o último baixamos tudo da internet e nos divertimos muito em casa mesmo, mas nem dá tempo de ir na rua comprar o tal petisco. Pipoca eu como mesmo em casa, nas sessões de filmes antigos como Dançando na Chuva, que foi lindo e eu chorei. E, enquanto chorava por um filme possivelmente da década de 50, lembrei que faltariam aí ainda 30 anos pra chorar, os de antes de eu nascer, e mais 10 anos até os 10 que nada sabem, e mais 14 de lá pra cá, todos chorados e não sabidos iguais.

Certezas, desistências, qualquer coisa que chamaremos então, serão belos os 40.

Pra isso, já que se trata de números esse texto, minha 1ª resolução para 2008: 50 minutos de exercícios diários, menos pipoca e esse antigo foco em complexos românces de cinema, só eu mesmo posso me salvar.

65% de chance de eu não cumprir, pelo menos a parte dos exercícios.