quinta-feira, novembro 23, 2006

Feriado – Primeira análise – Adolescentes

O tempo que a gente leva para lembrar das coisas e a clareza com que elas nos vem sao influenciados por diversos fatores, dentre os quais me lembro apenas das drogas.

*

Estive no inferno e a música estava muito agradável. Realmente o calor e as filas eram cansativos, mas nada que a bebida não deixasse mais leve. No caso, vodka com suco de laranja. Nada de muito interessante, fora a ótima companhia de uma amiga. Não sei exatamente a hora mas, mesmo sabendo dos riscos, decidi pegar um ônibus que me levaria 6 horas distante. E por lá eu me viraria pra descobrir porque eu fiz isso e qual seria o próximo passo.

*

Quando a gente passa 3 horas inteiras sentadas em um banco, pensa na vida. De não fazer nada eu até viveria bem, pensei então. Lendo, desenhando, dormindo… Sendo assim, não teria problemas de ir pra cadeira. E, sendo assim, valendo muito a pena, não teria problemas de cometer algum crime. Como matar alguém que me faz esperar 3 horas, por exemplo. Mas, diferente dos robôs de Electroma, eu consigo esquecer.

*

Encontrei a Silvana que procurava e ela estava alí, linda como sempre, cheia de exageros apaixonantes, fazendo seu novo riodejaneiro, com coragem e medo, com força e delicadeza, com tudo que uma mulher encantadora coloca nos seus poemas.

*

O prazer tem a capacidade de estragar tudo que a gente deixar ele estragar. Mas, pra falar a verdade, a gente não esta muito querendo deixar ele estragar nada não. E, cada um de nós, com o seu próprio desespero de vida, parece ter se divertido bastante.

*

Era tanta coisa pra ser dita, tanta coisa muito bem colocada no momento que agora parecia não fazer mais muito sentido, que de manhã foi só um tchau. Restou a minha curiosidade de saber como tudo estava, a estrada pela frente e uma daquelas historias que a gente vai rir muito e ter saudade da juventude quando chegar a fase que ficar 3 horas sentado não tem mais problema nenhum.

*

- Bandeira é uma coisa maneira, né?
Já estavam há umas 3 horas na estrada, e já haviam conversado sobre as duas noites confusas anteriores e tantas outras coisas importantes. Quando o papo acabou, começou realmente a vontade de falar das besteiras do mundo que agora queriam mais do que nunca que fosse comum. Foi quando ela viu uma bandeira tremulando muito bonita em bem feita em alguma empresa na Dutra, assunto imbecil perfeito.

- Eu gosto. Mas não da bandeira do Brasil. Acho muito farofada, muito exagerada. Mas mesmo assim é interessante. Sabia que é uma das bandeiras mais difíceis de reproduzir do mundo? Porque as estrelas estampadas estão na posição que estavam no céu num dia importante lá…

Ela sabia sim, mas preferiu aproveitar a palestra pra ficar olhando ele falar, com uma cara de impressionada, apaixonada e feliz o suficiente pra dar corda para esse tipo de papo, que deve ter durado mais uma hora.

*

Ele tem uma delicadeza engraçada, boba, tão apaixonante que faz mal ficar pensando nisso durante o trabalho. Ele coloca a blusa por dentro da calsa e um casaquinho de frio por cima, tudo com muita elegancia. Ele lembra todos os animais do zoológico. Ele me dá 14 mil beijinhos até eu pegar no sono, e aproveita que eu não estou mais vendo nada para me agarrar com força e só solta de manhã, e mesmo assim só uma hora atrasada pro trabalho e depois de muita insistência. E aí começa aquela beijação toda de novo, e eu já começo a pensar na desculpa de hoje.

*

10h20 no trabalho, uma semana que começa mal pro chefe pelo meu atraso e pior pra mim depois de tanta coisa boa que os finais de semana prolongados e inventados em cima da hora reservam. Esta tudo ótimo.

*

Dois dias depois, ele vai embora.