Quinta-feira e a estrada.
- Coloca os óculos.
Ela riu, ainda com a mão na testa evitando o sol forte.
- E eu depois coloco meu biquini, né?
- Putz, os biquinis! Do que adianta Guarapari sem biquinis??
- Você usa biquinis?
- Não, palhacinha, eu uso sungas.
- Ufa. E agora? Quer voltar?
Samuel aumentou o som. Chet Baker. A mulher extravagantemente pouco vestida ao seu lado exigia uma atitude radical, uma solução adolescente extrema, um sopro de vida revigorante que nada tinha a ver com o seu empreguinho que ficava kilometros e kilometros no passado, enquanto o sol parecia trazer essa vitalidade adormecida.
- Acho que eu não vou conseguir – Ela disse abraçando as pernas, dobradas sobre o banco.
- Como assim?
- Não vou conseguir ser metade dos seus sonhos hoje.
Ele ficou um pouco assustado pela analise, ainda mais vinda de uma puta. Mas não disse nada, porque sabia que ela tinha razão. E ela continuou.
- E amanha você vai chegar no trabalho, seu chefe vai desconfiar que, bronzeado, você não teve gripe coisa nenhuma. Logo você que, eu posso imaginar, não falta nem se atrasa nunca e aceita toda confiança e cobrança do seu chefe, mesmo estado na mesma posição, sem nenhuma promoção, há alguns anos. Então você vai ficar com medo de ser mandado embora, porque mesmo sendo uma merda, só com o esse seu dia-a-diazinho que você paga suas contas. Aí você vai lembrar dessa viagenzinha de merda, logo pra Guarapari lotada e a gente sem biquini, com uma puta bêbada e sem grana pro hotel. Aí você vai chorar no banheiro, pedir desculpas ao chefe, sentar na frente das suas pilhas de papéis e continuar mecânicamente pensando esses seus pensamentos comprados e médios, velhos e cansados, normais e caminhando para o fim.
Samuel, que já vinha desde o início da palestra diminuindo a velocidade do seu Uno vermelho, parou. Foram certa de cinco minutos de um silêncio eufôrico, ou quarenta e poucos minutos. Passaram pela sua cabeça todos os pensamentos do mundo que passam pela nossa cabeça quando a gente leva um choque tão forte que não consegue pensar em nada. Como quando alguém morre. E, naquele momento, talvez morreu nele de vez o jovem que ainda parecia bater nas paredes do estômago pedindo para sair.
Ainda estático, viu a garota loira pele bronzeada e falsos olhos verdes a apontar à esquerda do seu nariz. Quando ele virou para ver o que era, se deparou com uma imensidão verde azulada, aparentemente calma, mas sabidamente enfurecida de marés e vida se movendo. Samuel respirou. Virando agora para o lado contrario, viu a moça agora sem blusa, aqueles peitos maravilhosamente refletindo o sol, e um susurro forte e delicado:
- Eu só estava te testando, baby. Você não passou, mas ok. Estamos aqui mesmo assim
E o final da história foi pele, areia, água salgada e asfato e vida de verdade à fora.
Ela riu, ainda com a mão na testa evitando o sol forte.
- E eu depois coloco meu biquini, né?
- Putz, os biquinis! Do que adianta Guarapari sem biquinis??
- Você usa biquinis?
- Não, palhacinha, eu uso sungas.
- Ufa. E agora? Quer voltar?
Samuel aumentou o som. Chet Baker. A mulher extravagantemente pouco vestida ao seu lado exigia uma atitude radical, uma solução adolescente extrema, um sopro de vida revigorante que nada tinha a ver com o seu empreguinho que ficava kilometros e kilometros no passado, enquanto o sol parecia trazer essa vitalidade adormecida.
- Acho que eu não vou conseguir – Ela disse abraçando as pernas, dobradas sobre o banco.
- Como assim?
- Não vou conseguir ser metade dos seus sonhos hoje.
Ele ficou um pouco assustado pela analise, ainda mais vinda de uma puta. Mas não disse nada, porque sabia que ela tinha razão. E ela continuou.
- E amanha você vai chegar no trabalho, seu chefe vai desconfiar que, bronzeado, você não teve gripe coisa nenhuma. Logo você que, eu posso imaginar, não falta nem se atrasa nunca e aceita toda confiança e cobrança do seu chefe, mesmo estado na mesma posição, sem nenhuma promoção, há alguns anos. Então você vai ficar com medo de ser mandado embora, porque mesmo sendo uma merda, só com o esse seu dia-a-diazinho que você paga suas contas. Aí você vai lembrar dessa viagenzinha de merda, logo pra Guarapari lotada e a gente sem biquini, com uma puta bêbada e sem grana pro hotel. Aí você vai chorar no banheiro, pedir desculpas ao chefe, sentar na frente das suas pilhas de papéis e continuar mecânicamente pensando esses seus pensamentos comprados e médios, velhos e cansados, normais e caminhando para o fim.
Samuel, que já vinha desde o início da palestra diminuindo a velocidade do seu Uno vermelho, parou. Foram certa de cinco minutos de um silêncio eufôrico, ou quarenta e poucos minutos. Passaram pela sua cabeça todos os pensamentos do mundo que passam pela nossa cabeça quando a gente leva um choque tão forte que não consegue pensar em nada. Como quando alguém morre. E, naquele momento, talvez morreu nele de vez o jovem que ainda parecia bater nas paredes do estômago pedindo para sair.
Ainda estático, viu a garota loira pele bronzeada e falsos olhos verdes a apontar à esquerda do seu nariz. Quando ele virou para ver o que era, se deparou com uma imensidão verde azulada, aparentemente calma, mas sabidamente enfurecida de marés e vida se movendo. Samuel respirou. Virando agora para o lado contrario, viu a moça agora sem blusa, aqueles peitos maravilhosamente refletindo o sol, e um susurro forte e delicado:
- Eu só estava te testando, baby. Você não passou, mas ok. Estamos aqui mesmo assim
E o final da história foi pele, areia, água salgada e asfato e vida de verdade à fora.

3 Comments:
Ei moça!
Q post bacana!
Adorei a história!
Abraços!
achei seu texto antes de ver o comentário no meu blog. Lindo e terrível, como lhe é peculiar.
ah, dei muitas risadas também. to imaginando até agora a cara de Spade com as calças na mão, hahahaha...
Deixa de ser peça de vitrine e torna-se “agente politico de sua própria história”, Sabendo dos dissabores de ideais que servem de combustivel para paixão e esvaziam-se pós-coito, Revelando seu sacerdócio que não acaba com a viagem diante de um cotidiano fácil de seguir, Cômodo que logo vira se não hoje amanha para ele que a visita, Sacerdócio dedicado que a faz tirar a blusa mesmo sabendo o final, o silênco pós-coito, Chet com a carranca incrédula no absurdo da existência humana, talvez tragasse um cigarro e um álcool qualquer, Subestimando a todos que o julgaram por sua carranca e seu grito agoniado de trumpet: Cantando suavemente e revelando sua dedicação espiritual e corporal derramando sobre nós precipitados sua melodiosa voz cheia de um carinho aninhador e extrema e aguda, estranheza e agonia pela vida, Talvez esses tragos poderiam ser acompanhados por um simples observar um dia que o vento carrega as folhas secas das arvores como tem nos carregado a vida.
http://www.youtube.com/watch?v=iIjXwUb0xlY
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