IV. Antônia conversa com Fátima.
Você poderia ter tantas outras sortes, não é mesmo? Milhares mais brilhantes, como ganhar na megasena. É sim meu maior sonho. Você poderia estar em outros lugares, com outras pessoas. Percebe como nada do que vive te satisfaz? É sim. Pois é.
Percebe como você se vangloria pelo que já passou? E como você quer e quer mais que as coisas já tenham passado? Você corre. Não porque gosta de correr. Odeio. Queria mesmo ficar na minha, sentadinha no sofá. Ou melhor, deitada, de barriga pra cima, igual um cachorro peludo num dia frio, espreitando a única fileira de sol que entra pela janela, que podia ser aberta, mas você prefere continuar deitada. Prefiro.
Odeio correr. E não faço isso também porque quero chegar em lugar nenhum. Na minha cabeça só levo o medo. Corro porque amo deixar as coisas pra história, escrever no meu diário e ali colocar um mármore de eternidade, com meu nome entalhado, com minha vida gravada. Não quero o hoje, quero o eterno pelo ontem.
Então é isso, não me interessa meu agora, mais que isso, o que pode ser, o que pode se transformar, as milhões de outras coisas que consigo imaginar, e que passam apressadas na minha cabeça, como um exu que procura desesperadamente um foco de luz, uma ainda viva ação, desavergonhada e corajosa, que vai realizar seus sonhos mais secretos, aqueles que ninguém ousa, como cortes de cabelos que mulheres olham de lado, posturas e posições masculinas, voz alta quando não te perguntaram nada, e o silêncio como resposta para as exigências em nome das suas opções.
Veículo certo, destemida mulher, mostra a cara pra esconder os medos, dá o primeiro tapa. Desiste, volta, corre. Já ouvi algumas versões sobre mim. E eu me interesso por todas elas.
O problema é que eu consigo mesmo imaginar outras formas. Não pertenço a nada, não me digo nada e nem aceito cegamente as verdades que ouço de mim, nem mesmo as que eu mesma esboço proferir. Mas também não nego nada disso. Posso sim ser qualquer coisa, posso me refazer, como me refaço mesmo todo o tempo. Posso me colocar aceitavelmente mesmo que acidentalmente, posso ser, posso descrever e pintar os cabelos, ora curtos, ora grandes, ora cheio de mim mesma, ora desfeitos em pitadinhas de carinhos. Posso ser, não me nego à vontade. Fui louca já, fui de outro mundo, fui devassa, fui de frete, fui de costas. E minha mocidade me reserva ainda outros pecados.
E, meu eterno tempo ontem, ainda assim continuo, preciso mais, mais…, vício de fazer velho o novo, vício insaciável de estar além.
Estou, Fátima, estou longe de ser aquilo que está em minha mente. Talvez seja hoje o que planejei aos 18, tendo passado ano passado pelo momento de realizar os 15, totalmente. Da minha mente atual, chego à ação daqui há alguns anos, porque agora, diferente de alguns segundos atrás, e porque agora, diferente do agora que já mencionei, estou além.
Percebe como você se vangloria pelo que já passou? E como você quer e quer mais que as coisas já tenham passado? Você corre. Não porque gosta de correr. Odeio. Queria mesmo ficar na minha, sentadinha no sofá. Ou melhor, deitada, de barriga pra cima, igual um cachorro peludo num dia frio, espreitando a única fileira de sol que entra pela janela, que podia ser aberta, mas você prefere continuar deitada. Prefiro.
Odeio correr. E não faço isso também porque quero chegar em lugar nenhum. Na minha cabeça só levo o medo. Corro porque amo deixar as coisas pra história, escrever no meu diário e ali colocar um mármore de eternidade, com meu nome entalhado, com minha vida gravada. Não quero o hoje, quero o eterno pelo ontem.
Então é isso, não me interessa meu agora, mais que isso, o que pode ser, o que pode se transformar, as milhões de outras coisas que consigo imaginar, e que passam apressadas na minha cabeça, como um exu que procura desesperadamente um foco de luz, uma ainda viva ação, desavergonhada e corajosa, que vai realizar seus sonhos mais secretos, aqueles que ninguém ousa, como cortes de cabelos que mulheres olham de lado, posturas e posições masculinas, voz alta quando não te perguntaram nada, e o silêncio como resposta para as exigências em nome das suas opções.
Veículo certo, destemida mulher, mostra a cara pra esconder os medos, dá o primeiro tapa. Desiste, volta, corre. Já ouvi algumas versões sobre mim. E eu me interesso por todas elas.
O problema é que eu consigo mesmo imaginar outras formas. Não pertenço a nada, não me digo nada e nem aceito cegamente as verdades que ouço de mim, nem mesmo as que eu mesma esboço proferir. Mas também não nego nada disso. Posso sim ser qualquer coisa, posso me refazer, como me refaço mesmo todo o tempo. Posso me colocar aceitavelmente mesmo que acidentalmente, posso ser, posso descrever e pintar os cabelos, ora curtos, ora grandes, ora cheio de mim mesma, ora desfeitos em pitadinhas de carinhos. Posso ser, não me nego à vontade. Fui louca já, fui de outro mundo, fui devassa, fui de frete, fui de costas. E minha mocidade me reserva ainda outros pecados.
E, meu eterno tempo ontem, ainda assim continuo, preciso mais, mais…, vício de fazer velho o novo, vício insaciável de estar além.
Estou, Fátima, estou longe de ser aquilo que está em minha mente. Talvez seja hoje o que planejei aos 18, tendo passado ano passado pelo momento de realizar os 15, totalmente. Da minha mente atual, chego à ação daqui há alguns anos, porque agora, diferente de alguns segundos atrás, e porque agora, diferente do agora que já mencionei, estou além.

1 Comments:
Ai Ju sou sua fã.
Muito bom o texto
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