quinta-feira, outubro 05, 2006

VI. O nascimento de Antônia.

Quando Fátima era pequena, adorava andar de carro. Seu pai contava para ela que para dormir, ela não parava de chorar até entrar em um carro e dar uma voltinha. Aí os olhinhos já começavam a coçar, e o colo da mão ficava tão tão confortável…
E o caminho a frente, as coisas passando rápido pelo lado, e o barulhinho do vento, do motor, o balanço das curvas, sempre foram mesmo cruciais para seu desenvolvimento. Pode-se dizer inclusive “criada pela estrada”, ou “criada pelos próprios pensamentos”, porque na estrada você está só. Nenhum assunto dura muitas curvas e aquela cara de poucos amigos. Fátima sempre preferiu ficar sozinha e olhar a paisagem. Imaginava as montanhas, lá em baixo eram casas secretas, não sei porque essa menina sempre gostou de coisas secretas. Montanhas que, com passagens, abrigavam casas enormes, para ficar muito muito sozinha, andar pelos cômodos enormes e brancos, com o pé no piso gelado, com roupa branca e cinza, e mais pensamentos soltos e desconexos, detalhes eram mais sonhados do que linhas tais que formam a mente de uma pessoa. Daria festas para poucos amigos, receberia paixões fulminantes com meias nos pés. Chega claro o ponto mais revivido durante todo todo o tempo, infância até essa pseudo mulher que é.
Aos sete, escreveu uma historia de amor. Uma desilusão, para ser mais exata. Um casal de namorados que iam casar, até que a menina vê o namorado com outra. Coisas de criança, né? Criança estranha. Da época da escola, lembra mais dos bilhetinhos que mandava do que qualquer outra coisa. Lembra dos amores, daqueles que nunca chegou a beijar, e daqueles que ninguém nunca chegou a saber que existiam. Gostava de segredos. Nem gostava, se isso a fosse perguntado. Sofria, se afastava, sentia o peso das coisas, mas nunca fez nada para mudar. Nem vou julgar, penso que talvez ela acreditasse que tem coisas que não se falam, ou que ninguém tem nada a ver com isso, ou que ninguém poderia ajudá-la, ou, com medo digo, ela já soubesse que idiotas são essas versões, soubesse que ninguém ama coisa nenhuma, que ninguém quer ninguém, e que nada que precise de outra pessoa existe. Existe nada, existe você, um complexo de coisas, e existe outro, complexo muito mais. Qualquer que seja a relação de duas pessoas é uma mentira ilusória aceita nem sei porque, acredito muito. Mas me dizer que uma menina de nem 10 anos sabia disso? Fátima sempre sabia saber mais do que lhe era de saber, e muito mais do que lhe faria feliz em saber. Saber demais dói, não dói? É por isso que ela aceitava. Evitava falar sobre essas idiotices com alguém, era mesmo idiota demais para se passar tempo conversando sobre isso, ainda mais porque as outras pessoas tendiam a acreditar, acredita você??! Que acreditar o que… Mesmo morrendo de amores, ela deixa-se nessa ilusão sozinha, curtia suas loucuras com unhas e dentes, mas não dividia tão loucura com outros perdidos. Até que achou um dela, um que sabia da ilusão e sabia da loucura, e não dividia, mesmo que se entregando por completo. Mas isso foi bem depois, e nada simples.
Amigos teve sim, mas não muitos, nem muito profundos. Tinha muitos conhecidos, puxava um tanto de papo com qualquer um, mas preferia sair fora antes de começarem a escorrer aquelas oleosas carências, grudando em você de uma forma difícil de soltar. Divertia-se com os assuntos despreocupados dos meninos, e usualmente saia fora rapidinho de assuntos femininos. Sentia falta daquelas amigas irmãs, que conheciam toda a família, dormiam na casa e sabiam de cada detalhe seu. Mas também não fazia muito para mudar isso, pelo contrário, corria delas. Corria, pensava ela, de abrir-se desse jeito, mas na verdade não era por abrir-se, até faria isso se quisesse. Corria de ver pessoas abertas, sangrando desilusões, cobrando respostas que, meu deus, ela que não haveria de ter!!! Sozinha fazia cada vez mais confusão naquela sua mente doida, mas preferia isso do que aquelas confusões mais doidas de gente que acredita que confusões doidas são elas, e elas são alguma coisa, de novo isso. Como uma criança de menos de 10 anos ia saber disso tudo? Saiu daquela cidadezinha porque aquele pensamento não conseguia cobrir outras desilusões. Porque quando um pensamento qualquer que seja, cobre como uma manta quentinha as suas desilusões, você pára. Ela não, 10 anos e já buscava uma manta maior. E na outra cidade encontrou apenas mais gente fechada em si, nas suas versões. Agora, vou adiantar um fato. Em Vitória encontrou gente aberta à própria confusão, como ela, mas você pensa que ela parou, se sentiu em casa? Ela corria desse povo, pensava que era por algum tipo de medo, mas ela não agüenta ninguém mesmo.