quinta-feira, outubro 05, 2006

VII. Antônia hoje.

O primeiro namorado se chamava Ulisses. Esse nome não representava pra ela nenhuma referência interessante, então Ulisses parecia ser da história dela. E foi. Paixão mesmo, fulminante, de não perceber como era Ulisses um desses caras bestas, falam de sí e de suas coisas, grana e conhecidos. Mas foi mesmo com Paulo que descobriu a vida, o amor, a alegria, o descomprometimento com uma doçura tão feliz, e as mais cruéis mágoas, como um amor deve ser. Voltas e términos, se apaixonou perdidamente por tantos, conheceu outras cidades, outras partes, outros homens e mulheres e outras coisas mais. Um amor estava quebrado, mas é tão difícil ver… Experimentou da vida, ninguém pode dizer o contrário. Usou das coisas, espalhou-se por aí. Se divertiu. Mas o amor quebrou-se mesmo, e ela se culpa por isso, como deve ser, mas segue. Usualmente chora chora, sofre sofre e segue, como deve ser.
É mais difícil falar de paixões passadas, por isso sinto-me mais impelida a conversar sobre esse aí, esse que me desagrada tanto, mas vai colocar juízo na cabeça dessas meninas… Mesmo rachado, ela levava aquele amor até um limite, dizia que ele superava qualquer coisa, dizia que ele estava acima. Talvez estivesse mesmo, nesse lugar acima, bem acima, onde os amores vão depois de morrer e explodir em novas cores: a amizade. Fácil falar de amizade quando é você que termina, isso Paulo dizia, e ela até concordava, mas nada podia fazer. Foi Espinosa, aquele taxidermista que ela inventou de ter um caso. Foi por culpa desse caso adolescente que mais uma vez ela deixava de lado a preocupação com os outros e também as tais linhas que conduzem um ser humano. E ela nem sabe se quer namorar ele. Essa menina é tão inconseqüente, não sei mais o que eu faço. Pelo menos hoje ela já é inconseqüente e sabe disso, pelo menos ela não esconde mais. Digamos que isso já ajuda.
Espinosa apareceu na sua vida nesse novo trabalho, nessa nova cidade e nesses novos pensamentos que passaram a acometer Fafá quando ela pintou os cabelos de preto. Ela cansou daquela loucura toda do vermelho, mas voltar a ser uma ingenuazinha de cabelos loirinhos era demais. E morena, sentia-se nova, limpa, mais com um tanto de loucura – madura agora, e uma loucura madura que não aceitava exibições, mas que se divertia bastante dentro daquele quarto apertado bagunçado que morava.
Espinosa tinha um fôlego incrível para aquela cara de cachorro com doença. E ela adorava as duas coisas. O sexo se tornou uma coisa tão animal, tão grosseira e tão sensacional que era difícil dizer não. Nunca soube mesmo, cá entre nós, mas dizia que agora era diferente. O carinho com que ele lhe batia na cara era incrível. E, depois do primeiro tapa, pronto, baixavam dois personagens alí e a novela, se assim fosse, daria bastante audiência. Ela gritava pra ele meter, e os vizinhos deviam adorar essa parte. Disso pra mais.
E aqui chegamos a linha atual, já que isso tudo foi ontem. Hoje ela disse: não me importune, acabei de terminar um namoro de 5 anos, não quero me meter em nenhuma encrenca de novo (enquanto pensava: termina logo com essa bosta da sua namorada e vamos nos divertir juntos). Daqui pra frente não sei o que vai dar, como não sei o que se deu do nosso passado, como pode ter sido percebido pelas lunações e incongruências. A gente não sabe de nada, nunca sabe, isso sim.