Deformidades – Parte II
Oi, eu sou a Danete*, tenho 23 anos. Eu também tenho lá minhas deformidades. Diria que até mais do que o usual. Bem mais do que o normal, pra ser franca. Bom, são muitas mesmo. Mas hoje eu estou aqui não pra mim, mas pra escrever a historia de outra pessoa. Ou a minha relação com essa outra pessoa, porque essa coisa de “história” é tão complexa (vc pode se ver triste, feliz, sonolento, elétrico, cedo, surdo ou mudo. Isso já está claro pra mim. E está claro também que, por fim, com base nessa nossa historia inventada, a gente cria ou aceita, ou faz enraizar muito das nossas deformidades).
Tá, o motivo deu estar escrevendo essa história é porque o Rodolfo* não tem lingua, então ele não pode falar, ok? Vou falar pra ele já que ele não pode falar. E que fique bem claro: antes de começar com qualquer uma das minhas ilusões de vida real, eu perguntei pro Rodolfo: - Rodolfo, posso escrever sua história? Pra ser sincera, ele disse: unhû. (Só pra ficar claro: quando o Rodolfo fala unhû é não e anhã é sim). Aí eu falei: - Mas Rodolfo, porque que você não quer que eu escreva sua historia? Você tem uma historia linda, sabia? Você é sensacional, todo mundo vai gostar de saber da sua vida. Aí o Rodolfo ficava fazendo sinal de humm, hamm, coisas que eu não sei bem o que eram, mas não eram nem sim nem não.
Então eu continuava argumentando. Sabe, eu sou assim. As vezes me sinto meio mal por argumentar tanto, me sinto mal por querer mudar a vida das pessoas, sei lá porque. Eu nem quero mudar nada na verdade, queria só uma boa briga de palavras. Queria vencer sim, como qualquer um, mas queria sair bem machucada e aprender umas coisas novas.
Mas, argumentar, querendo ou não, é fazer alguém mudar de opinião. E eu, todas as vezes que fiz alguém mudar de opinião, me arrependi depois. E com o Rodolfo, foi o maior dos casos que eu me arrependi. Porque, de tanto argumentar, ele não só não falava unhû, como gritava e esbravejava anhã até sua boca encher de sangue. O Rodolfo passou a acreditar tanto nos meus argumentos que eu passei a ver como aquilo tudo era pequeno. E isso me deu um peso na consciência inacreditável. E o meu peso não sai mais, já era. Até gastrite me deu.
Mas essa historia também tem um outro lado. Ninguem é bobo, não é Rodolfo? – Anhã. Pois é, ninguém faz o que não quer. Algum motivo tinha pro Rodolfo aceitar. E, em algum momento, ele foi feliz aceitando.
Mas eu falei mesmo, falei muito, fui a maior bestona do mundo por isso. Talvez minha maior deformidade, depois da do cérebro, é o exesso de lingua. Estou afim de me mudar mesmo, já estou no meu processo. Mas o Rodolfo, putz, esse Rodolfo é um recalcado, cheio de desculpinhas. Vai fazer o que agora? Textinhos pra me doer? Doer me doi, e muito, mas isso vai mesmo evoluir suas deformidades?
Quer saber um segredo? Lingua cresce. Cresce sim, juro por deus. Mas só se a gente quiser de verdade, Rodolfo. Mas isso eu nem ouso querer te convencer.
Tá, o motivo deu estar escrevendo essa história é porque o Rodolfo* não tem lingua, então ele não pode falar, ok? Vou falar pra ele já que ele não pode falar. E que fique bem claro: antes de começar com qualquer uma das minhas ilusões de vida real, eu perguntei pro Rodolfo: - Rodolfo, posso escrever sua história? Pra ser sincera, ele disse: unhû. (Só pra ficar claro: quando o Rodolfo fala unhû é não e anhã é sim). Aí eu falei: - Mas Rodolfo, porque que você não quer que eu escreva sua historia? Você tem uma historia linda, sabia? Você é sensacional, todo mundo vai gostar de saber da sua vida. Aí o Rodolfo ficava fazendo sinal de humm, hamm, coisas que eu não sei bem o que eram, mas não eram nem sim nem não.
Então eu continuava argumentando. Sabe, eu sou assim. As vezes me sinto meio mal por argumentar tanto, me sinto mal por querer mudar a vida das pessoas, sei lá porque. Eu nem quero mudar nada na verdade, queria só uma boa briga de palavras. Queria vencer sim, como qualquer um, mas queria sair bem machucada e aprender umas coisas novas.
Mas, argumentar, querendo ou não, é fazer alguém mudar de opinião. E eu, todas as vezes que fiz alguém mudar de opinião, me arrependi depois. E com o Rodolfo, foi o maior dos casos que eu me arrependi. Porque, de tanto argumentar, ele não só não falava unhû, como gritava e esbravejava anhã até sua boca encher de sangue. O Rodolfo passou a acreditar tanto nos meus argumentos que eu passei a ver como aquilo tudo era pequeno. E isso me deu um peso na consciência inacreditável. E o meu peso não sai mais, já era. Até gastrite me deu.
Mas essa historia também tem um outro lado. Ninguem é bobo, não é Rodolfo? – Anhã. Pois é, ninguém faz o que não quer. Algum motivo tinha pro Rodolfo aceitar. E, em algum momento, ele foi feliz aceitando.
Mas eu falei mesmo, falei muito, fui a maior bestona do mundo por isso. Talvez minha maior deformidade, depois da do cérebro, é o exesso de lingua. Estou afim de me mudar mesmo, já estou no meu processo. Mas o Rodolfo, putz, esse Rodolfo é um recalcado, cheio de desculpinhas. Vai fazer o que agora? Textinhos pra me doer? Doer me doi, e muito, mas isso vai mesmo evoluir suas deformidades?
Quer saber um segredo? Lingua cresce. Cresce sim, juro por deus. Mas só se a gente quiser de verdade, Rodolfo. Mas isso eu nem ouso querer te convencer.

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