terça-feira, junho 27, 2006

Um ser só

ou
Diário da esperada solidão; ou
A solidão antes da barata; ou
Ninguém se entende com baratas; ou
Espere por mim; ou
Questões filosóficas de enfrentar uma barata; ou
A falta de filosofia da barata; ou
Intrusa no silêncio; ou
Estar preparada; ou
O silêncio exige companhia.



Nunca pode-se afirmar que morar sozinha sem ter passado pela primeira e maior de todas as provações femininas: a barata. Ontem, já deitada, decidi que estava ótima alí, e ia dormir assim mesmo, sem me levantar pra mais nada, nem beber água ou escovar os dentes. Friozinho e edredon comovem um cidadão. O quarto vazio e apertado me dá a impressão que sozinha sinto melhor o ar. Não que esse ar poluído me apeteça, nem que essas conversas comigo mesma sejam das melhores que já tive. Pensando bem, o quarto é apertado demais, e começo a observar como são velhos esses móveis, como são sujos e típicos daquele livro de sebo, onde o personagem descreve sua casa escuramente. Não ligo, estou sozinha. Essa é a minha casa, por mais que seja só um quartinho nos fundos do pequeno apartamento de fundos de uma doida carente qualquer. Esse quarto é meu. Vazio, móveis escuros e roupa de cama clara. Sou a dona daqui, a rainha. E a rainha agora vai ler um pouquinho do livro do amante e dormir. Ler o tanto que eu quiser e dormir. O livro é bom, me diverte, me faz rir, saboreando a sorte de um homem e sua apatia.

Um movimento rápido não meu no quarto. De repente a harmonia estática do quarto não é a mesma, eu eu percebo que não estou sozinha. Formigas, penso positivante, imaginando deixa-las alí mesmo, e elas eu aqui. Levantei-me cuidadosa e, entre duas pilhas pequenas de livros, sobre a mesinha do lado da minha casa no chão, uma pequena barata. Pensamento um: feliz de mim, que, na primeira barata, não terei que enfrentar aquelas enormes, marrons, vagarosas de tão cínicas. Pensamento dois: inferno de baratas pequenas, como são mais ágeis... E, ainda com cuidado, analizei sua anatomia, corpo pequeno, pernas mais longas para correr melhor, e ainda com arcáicas articulações, talvez para pular. Pensei então que seria uma luta difícil. Primeiro pensei em tentar pegá-la com um papel, mas isso não fazia muito sentido. Lembrei do chinelo, a arma universal contra baratas, e me senti idiota pelo papel. Mas eu com sono e a barata em um gap nos livros onde não entraria facilmente o chinelo: isso ia complicar. Podia planejar mais, mas o sono. Bati atropeladamente umas duas vezes, e, claro, ela fugiu. Não vi direito pra onde, talvez tivesse se enfiado no pequeno móvel. Até abri as portas, até mexi nos sapatos, tentando assustar minha inimiga noturna, mas ela se manteve escondida e confiante. Ok, pensei, até amanhã então. E dormi.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

kkkkkkkkkkkk
vc é maluca meu!

1:11 AM  

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