opa.3
Um belo dia dei por mim acordando em um recipiente apertado, todo transparente de água e vidro, mas a minha memória curta impedia qualquer outra análise além dessas. Juntando os fatos, semanas depois, o líquido que era trocado com frequência, as pedrinhas coloridas no fundo e minha agilidade com, ups, nadadeiras, deduzi-me um peixe.
E foi um tanto difícil de assumir tal condição. Fiz até greve de fome. Mas não tinha jeito: acordava todos os dias molhado.
Foi mesmo um baque. Mas, lá pra segunda semana, já tinha me recuperado. E, convenhamos, duas semanas depois, e depois de passar a negação, a raiva, a depressão e todos os outros estágios de uma aceitação, não arrumei mais muita coisa pra fazer por alí.
Começou como tinha quer ser: 1. Falei assim, sem pensar. 1. E um 1 não pode ficar sozinho, então fui logo tratando de puxar 2, 3, 4, e quando eu estava no 5, me lembro bem, desembestou minha linguinha e eu passei a gritar bolinhas de ar desesperadamente, subindo a escadinha de números, como um cavalo assustado que vai embora. 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14…
Quando a gente está contando, ainda entram na nossa cabeça certos fios de pensamento, mas eu vou te dizer que não são muitos pensamentos não. A gente consegue dividir a parte da cabeça que não está se preocupando com a contagem, num número muito pequeno de coisas. Na verdade, não é nem a quantidade de pensamentos a pior das coisas, mas a profundidade. E, foi só pelo 75 que pensei como iria parar. Eu já havia chegado ao 75, 76, 77, 78, enfim, quem vai tão longe, não para assim por parar.
92: de supetão? Não, seria otário tentar me enganar. 121: abaixando a voz? E eu lá sou criança? 162: parar pra que? Coragem agora, encara a problemática, vai embora. Afinal, você não tem nada pra fazer mesmo… Idéia infeliz. Se no 75 é difícil parar, imagina no 5.342. Eu diria até que ficamos um pouco paranóicos.
No 11.100, percebi que o 12 mil seria um marco. E, de fato, depois de pronunciá-lo numa bolinha, resolvi me matar. Eu tinha certeza que, se eu parasse, o mundo acabaria. Um peixe contando até 12 mil, com toda desilução surgida lá pelo 900, bolinhas e mais bolinhas de ar, a ordem do mundo nunca mais seria a mesma sem minha contagem. O mundo na certa explodiria ou coisa assim.
Então, para não parar, resolvi mesmo morrer e poupar o mundo desse triste fim: um segundo big ben originado de um peixe revoltado que parou de contar.
Mas eu ainda tinha problemas. Ou você julga ser simples achar uma forma de se matar dentro de um aquário? Tinha um fio de sol que, às 3h42 exatamente, batia refletido pela janela do prêdio da frente, depois na nossa janela, e entrava pelo aquário como um trovão, esquentando a água e quimando meus olhinhos. Mas esse raio, mesmo forte, não dura mais que dois minutos, e logo já vai queimar outro canto. Resolvi então parar de comer e ir enfraquecendo até morrer. Nada difícil com aquela comidinha horrível. E assim foi feito.
Lá pro 92.000, eu já estava bem fraco, e aquilo tudo aconteceu no 92.120. 92.120, 92.130. pronto, foi isso. não sei porque, errei mesmo, me confundi, estava fraco pra burro. Opa! E dalí pra frente já se sabe. E eu, assustado, arrependido, envergonhado, ando comendo cada vez menos, olhando direto pro raio de sol das 3h e pouco, levo minha cara de concentração característica dos peixes, e vou até onde aguentar, sem parar de acrescentar a cada segundo um novo pontinho na minha lista de números crescentes, carregando, com toda experiência, a ordem do mundo nas costas.
E foi um tanto difícil de assumir tal condição. Fiz até greve de fome. Mas não tinha jeito: acordava todos os dias molhado.
Foi mesmo um baque. Mas, lá pra segunda semana, já tinha me recuperado. E, convenhamos, duas semanas depois, e depois de passar a negação, a raiva, a depressão e todos os outros estágios de uma aceitação, não arrumei mais muita coisa pra fazer por alí.
Começou como tinha quer ser: 1. Falei assim, sem pensar. 1. E um 1 não pode ficar sozinho, então fui logo tratando de puxar 2, 3, 4, e quando eu estava no 5, me lembro bem, desembestou minha linguinha e eu passei a gritar bolinhas de ar desesperadamente, subindo a escadinha de números, como um cavalo assustado que vai embora. 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14…
Quando a gente está contando, ainda entram na nossa cabeça certos fios de pensamento, mas eu vou te dizer que não são muitos pensamentos não. A gente consegue dividir a parte da cabeça que não está se preocupando com a contagem, num número muito pequeno de coisas. Na verdade, não é nem a quantidade de pensamentos a pior das coisas, mas a profundidade. E, foi só pelo 75 que pensei como iria parar. Eu já havia chegado ao 75, 76, 77, 78, enfim, quem vai tão longe, não para assim por parar.
92: de supetão? Não, seria otário tentar me enganar. 121: abaixando a voz? E eu lá sou criança? 162: parar pra que? Coragem agora, encara a problemática, vai embora. Afinal, você não tem nada pra fazer mesmo… Idéia infeliz. Se no 75 é difícil parar, imagina no 5.342. Eu diria até que ficamos um pouco paranóicos.
No 11.100, percebi que o 12 mil seria um marco. E, de fato, depois de pronunciá-lo numa bolinha, resolvi me matar. Eu tinha certeza que, se eu parasse, o mundo acabaria. Um peixe contando até 12 mil, com toda desilução surgida lá pelo 900, bolinhas e mais bolinhas de ar, a ordem do mundo nunca mais seria a mesma sem minha contagem. O mundo na certa explodiria ou coisa assim.
Então, para não parar, resolvi mesmo morrer e poupar o mundo desse triste fim: um segundo big ben originado de um peixe revoltado que parou de contar.
Mas eu ainda tinha problemas. Ou você julga ser simples achar uma forma de se matar dentro de um aquário? Tinha um fio de sol que, às 3h42 exatamente, batia refletido pela janela do prêdio da frente, depois na nossa janela, e entrava pelo aquário como um trovão, esquentando a água e quimando meus olhinhos. Mas esse raio, mesmo forte, não dura mais que dois minutos, e logo já vai queimar outro canto. Resolvi então parar de comer e ir enfraquecendo até morrer. Nada difícil com aquela comidinha horrível. E assim foi feito.
Lá pro 92.000, eu já estava bem fraco, e aquilo tudo aconteceu no 92.120. 92.120, 92.130. pronto, foi isso. não sei porque, errei mesmo, me confundi, estava fraco pra burro. Opa! E dalí pra frente já se sabe. E eu, assustado, arrependido, envergonhado, ando comendo cada vez menos, olhando direto pro raio de sol das 3h e pouco, levo minha cara de concentração característica dos peixes, e vou até onde aguentar, sem parar de acrescentar a cada segundo um novo pontinho na minha lista de números crescentes, carregando, com toda experiência, a ordem do mundo nas costas.

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home