V. Elementar. Ou: fim.
Quando as coisas começaram a se acertar pra gente, isso lá pro final do primeiro ano juntas, tínhamos as duas cabelos pretos. E isso fez toda diferença. Vale lembrar.
Eu sempre tive meus cabelos pretos. Não sou muito de mudanças, por mais que essa menina me tenha atirado tantas críticas. Ela sim sabe viver. Cabelo cresce, porra.
Ela era loira. Eu lembro da época da escola, enormes, brilhando no sol enquanto ela desfilava por aí com uns livros na mão, como se estudasse… Danada, era livre. Nem sabia que era, porque assim que são esses livres, essa raça desgraçada que só serve pra fazer pessoas como eu refletirem sobre a merda de vida que tem. As vezes fumava, pouco. As vezes ria alto, com as mãos no rosto. As vezes sentava no chão verde e gelado, com as pernas dobradas, as mãos segurando os joelhos, uma menina. E eu só a observando. E o pior é saber que aquela arteira já sabia que eu estava alí. Ela tinha total consciência (pra não dizer controle) que estava sendo observada por uma mulher mais velha, cabelos pretos, casacos de frio de tons pasteis, e um tanto já sem disposição para sentar assim no chão, mesmo que mantendo as unhas vermelhas como desleixo.
Sei lá de mim. Biografias são coisas engraçadas. Sei lá de mim. Sei dessa moleca. Foi alí, naquele momento, exato momento num largo corredor aberto nas laterais que me apaixonei por ela. E por mim, né. Mas mais por ela mesmo, solta… Foi alí, sendo ela, que eu decidi ser ela. E isso me causou certos problemas.
O primeiro foi ela me conhecer completamente, mas fugir disso. Ela não se apaixonou por mim. Ouso dizer que ela nunca esteve apaixonada por mim, mas vou decidir isso avaliando fatos mais adiante.
Talvez, Fátima, você tenha nascido alí mesmo, caída descabelada e ensangüentada de uma brecha do céu. Do céu sim, você tinha uma pureza angelical com aqueles lisinhos e longos cabelos cor de ouro. Linda, menina, linda. Gastaria páginas e páginas só nesse mesmo dia, nessas mesmas cores, em cada detalhe do seu sorriso, porque foi essa a Fátima mais maravilhosa que você já foi, a que guiou anos e anos, perdidos todos, buscando uma leveza que alí estava escorrendo junto com o sangue, manchando os seus caminhos e grudando essa imagem na mente de tantas pessoas, como na minha.
15 anos? Foi com apenas 15 anos que você já era esse todo sonho, Fátima? Me assusta saber quanto tempo já se passou. Hoje até me enveredo por outras bandas, hoje sou confiante de mim, Antônia. Mas passei por uns mal bocados por sua causa, menina. Apenas 15 anos e tanta vida.
Alguém pode ser uma coisa e buscar ser aquilo mesmo ao mesmo tempo? Foi você, Fátima. Buscou anos ser aquela menina, buscou a leveza e o desprendimento, e chegou ao limite disso. Você teve sucesso nisso, mas me irrita um pouco descrever. Tudo começou o primeiro corte, e os cabelos curtos já te propiciavam certa liberdade. Mas, quando você resolveu pinta-los de vermelho, tudo já estava feito. Você assumiu o controle, você se deixou ser, e isso foi longe demais.
Sei, sei…. Falar que foi longe de mais é típico de velhos e apáticos como eu, mas é uma versão, aceite. Houveram críticas, e críticas são mesmo mostras que existe alí uma revolução. Em busca da não-mentira, da libertação de padrões, da alegria suprema, você deixou aqueles tantos livros e apostilas que acompanharam a faculdade, transformando-se na sua própria arte. Seu próprio protesto. Não era mais um texto que ia pro blog, era um confronto público, era a guerra visual e comportamental que você estava disposta a travar, por nada talvez, só porque achava divertido. E esse foi seu grande mérito. Admiro essa sua fase, mesmo sendo cansativa, e me dando preguiça só de pensar. Mas apenas minha admiração não foi suficiente. Mesmo namorando comigo, foi a fase que você menos foi minha. Foi por isso que eu sumi. Fiquei bem uns meses fora. Você precisava de você, e eu aceitei, nem dei as caras, nenhuma vez fui no seu ouvido pedir para você ter calma, pedir para você parar e para se adequar. Deixei você livre. Sabendo, lá no fundo, que isso só me fortaleceria quando você cansasse de fazer da sua vida um quadro público.
Você se mostrou, se divertiu. E, como previa, cansou. Hoje, nem no orkut coloca suas fotos. Assim como eu. E foi nesse momento que você resolveu vir morar comigo, no meu esconderijo que passou a ser nosso, e aí você pinta seus cabelo de preto. Parece ser uma nova fase. Eu, quieta como sempre, penso até quando vai durar. Mas essa conversa de ter filho me irrita bastante.
Eu sempre tive meus cabelos pretos. Não sou muito de mudanças, por mais que essa menina me tenha atirado tantas críticas. Ela sim sabe viver. Cabelo cresce, porra.
Ela era loira. Eu lembro da época da escola, enormes, brilhando no sol enquanto ela desfilava por aí com uns livros na mão, como se estudasse… Danada, era livre. Nem sabia que era, porque assim que são esses livres, essa raça desgraçada que só serve pra fazer pessoas como eu refletirem sobre a merda de vida que tem. As vezes fumava, pouco. As vezes ria alto, com as mãos no rosto. As vezes sentava no chão verde e gelado, com as pernas dobradas, as mãos segurando os joelhos, uma menina. E eu só a observando. E o pior é saber que aquela arteira já sabia que eu estava alí. Ela tinha total consciência (pra não dizer controle) que estava sendo observada por uma mulher mais velha, cabelos pretos, casacos de frio de tons pasteis, e um tanto já sem disposição para sentar assim no chão, mesmo que mantendo as unhas vermelhas como desleixo.
Sei lá de mim. Biografias são coisas engraçadas. Sei lá de mim. Sei dessa moleca. Foi alí, naquele momento, exato momento num largo corredor aberto nas laterais que me apaixonei por ela. E por mim, né. Mas mais por ela mesmo, solta… Foi alí, sendo ela, que eu decidi ser ela. E isso me causou certos problemas.
O primeiro foi ela me conhecer completamente, mas fugir disso. Ela não se apaixonou por mim. Ouso dizer que ela nunca esteve apaixonada por mim, mas vou decidir isso avaliando fatos mais adiante.
Talvez, Fátima, você tenha nascido alí mesmo, caída descabelada e ensangüentada de uma brecha do céu. Do céu sim, você tinha uma pureza angelical com aqueles lisinhos e longos cabelos cor de ouro. Linda, menina, linda. Gastaria páginas e páginas só nesse mesmo dia, nessas mesmas cores, em cada detalhe do seu sorriso, porque foi essa a Fátima mais maravilhosa que você já foi, a que guiou anos e anos, perdidos todos, buscando uma leveza que alí estava escorrendo junto com o sangue, manchando os seus caminhos e grudando essa imagem na mente de tantas pessoas, como na minha.
15 anos? Foi com apenas 15 anos que você já era esse todo sonho, Fátima? Me assusta saber quanto tempo já se passou. Hoje até me enveredo por outras bandas, hoje sou confiante de mim, Antônia. Mas passei por uns mal bocados por sua causa, menina. Apenas 15 anos e tanta vida.
Alguém pode ser uma coisa e buscar ser aquilo mesmo ao mesmo tempo? Foi você, Fátima. Buscou anos ser aquela menina, buscou a leveza e o desprendimento, e chegou ao limite disso. Você teve sucesso nisso, mas me irrita um pouco descrever. Tudo começou o primeiro corte, e os cabelos curtos já te propiciavam certa liberdade. Mas, quando você resolveu pinta-los de vermelho, tudo já estava feito. Você assumiu o controle, você se deixou ser, e isso foi longe demais.
Sei, sei…. Falar que foi longe de mais é típico de velhos e apáticos como eu, mas é uma versão, aceite. Houveram críticas, e críticas são mesmo mostras que existe alí uma revolução. Em busca da não-mentira, da libertação de padrões, da alegria suprema, você deixou aqueles tantos livros e apostilas que acompanharam a faculdade, transformando-se na sua própria arte. Seu próprio protesto. Não era mais um texto que ia pro blog, era um confronto público, era a guerra visual e comportamental que você estava disposta a travar, por nada talvez, só porque achava divertido. E esse foi seu grande mérito. Admiro essa sua fase, mesmo sendo cansativa, e me dando preguiça só de pensar. Mas apenas minha admiração não foi suficiente. Mesmo namorando comigo, foi a fase que você menos foi minha. Foi por isso que eu sumi. Fiquei bem uns meses fora. Você precisava de você, e eu aceitei, nem dei as caras, nenhuma vez fui no seu ouvido pedir para você ter calma, pedir para você parar e para se adequar. Deixei você livre. Sabendo, lá no fundo, que isso só me fortaleceria quando você cansasse de fazer da sua vida um quadro público.
Você se mostrou, se divertiu. E, como previa, cansou. Hoje, nem no orkut coloca suas fotos. Assim como eu. E foi nesse momento que você resolveu vir morar comigo, no meu esconderijo que passou a ser nosso, e aí você pinta seus cabelo de preto. Parece ser uma nova fase. Eu, quieta como sempre, penso até quando vai durar. Mas essa conversa de ter filho me irrita bastante.

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