quarta-feira, novembro 29, 2006

Pertencer

Eu adoro revistas. Mais do que qualquer outra coisa. Não, na verdade acho que elas ficam em terceiro lugar, depois da minha mãe, meu pai e minha irmã. Mas o terceiro lugar é uma posição muito especial. Eu adoro fazer listas, e tudo que eu gosto em terceiro lugar eu gosto muito. E revistas eu amo. As vezes eu esqueço disso, mas toda vez que abro uma boa revista, lembro de novo como é bom ser entendido.

E, quando a gente ama alguma coisa, é só porque ela ama a gente também.

Quando a gente observa um penhasco por muito tempo, o penhasco observa a gente também. Nietzscheniana essa primeira idéia que me faz escrever. Porque esses dias eu sonhei que tinha um penhasco me encarando, e eu fiquei muito assustada, de verdade. Porque eu conseguia ver os olhos do penhasco, e assim me ver, e a visão de mim pelos olhos do penhasco… bom, não foi uma experiência muito legal, mas isso acabou me fazendo entender tudo, e quando a gente entende tudo fica até um pouco melhor, mas é bem mais pra lá que vou falar disso.

Pensei em duas coisas que me fizeram mal também esses dias. A primeira foi de um desses caras mal humorados que eu sempre vou com a cara. Ele disse: ler é mais importante que escrever (Jorge Luis Borges, por André Caramuru Aubert). Quanto menos a gente lê, mais quer escrever. Ando lendo muito pouco, consequentemente, na teoria do velho ranzinza, escrevendo muito. Trabalhando sempre, ainda venho andando, sem nenhuma paradinha em banco de ônibus atôa, nenhum tempinho livre e tranquila pra ler. Ontem conversei com um ex-professor que disse que admirava como, antes das aulas, eu estava lá sempre lendo alguma coisa. Me senti um pouco mal e enferrujada. Comecei a ler A Ilha antes de sair de Vitória, e não completei 100 páginas ainda. 8 meses. Aqui já lí O Estrangeiro e O Apanhador do Campo de Centeio. Excelentes. Mas curtinhos, né? Facinhos. Os clássicos, as filosofias, as chatices altamente evoluídas, neca. Uma psicóloga que eu fui uma única vez teve a ousadia de indicar ler Em Busca do Tempo Perdido. Eu não ia pagar 200 reais a hora pra alguém só aumentar minha angústia.

Bom, a segunda coisa que me fez mal foi numa palestra que eu fui. (Por trabalhar muito e ler pouco, eu fico indo muito no cinema, em todas as palestras possíveis, em baladas, museus, shopping, ou qualquer outro meio de informação didática, que a gente se abasteça de alguma coisinha que seja em apenas uma hora). Essa especificamente foi no IED, com várias pessoas e em especial um artista plástico muito fudido chamado Marcelo Cidade, que eu já conhecia de algumas dessas paradas rápidas em galerias. Então ele vem me falar – logo pra mim: minha arte não é nada além, é o que eu vivo, é a rua. Eu queria perguntar se ele conhecia minha psicóloga. Agora é assim, vai todo mundo ficar jogando na minha cara a facilidade com que é ser genial?

Sai da palestra obstinada. Não pestanejei, não hesitei: fui direto ao Mac Donalds. Um Big Mac, um Quarteirão e uma Coca Cola pequena. Pensei que uma hora eu tinha que parar com isso, mas não agora. Que ódio, que raiva, quando eu sentei, tinha acabado de acabar a novela do foguinho que eu adoro pra começar aquela merda de jornal. Sentei no fundo, onde só chegava uma musiquinha de elevador. Comer é divino, porque a gente não pensa em nada por uns 15 minutos, e é muito feliz.

Sai da lanchonete e fui caminhando pela Av. Angélica. Eram umas 10 da noite, a palestra tinha durado uma hora, naquele dia eu tinha trabalhado umas 12 horas como de costume, e ainda programava ir ver o show do Montagem no Glória a noite, o que não é nenhuma baladinha light. Eu estava cansada e angustiada e meu dia ainda iria longe. Pelo menos não estava com fome. Passei por uma banca. Na verdade eu ví ela se aproximando e já fiquei feliz por essas facilidades de São Paulo. Entrei, é claro. Peguei um chocolate antes de qualquer outra coisa. A Simples eu vou receber em casa, nem folhiei pra não estragar as surpresas. Essas importadas de moda são incríveis, mas é isso mesmo que você está buscando? Política não, culinária não… Esses dias lí só um pedacinho de uma Trip e tinha um cineasta (sabe que eu sempre falei cineastra? A pronúncia é muito melhor, pena que é errado…) dando um roteiro que ele acha bacana na cidade. Do que vale a terceira maior cidade do mundo sem um bom roteiro, pensei. Trip.

Em casa, me isolei em volta de mim. Um cigarro só pra começar relaxada essa planejada discusão com as folhas preenchidas.

Eu comprei uma polaroid. Deve ter um mês e pouco. Eu procurei muito e comprei pela internet, de uma menina de Brasília, mas eu peguei com o namorado dela no Rio quando eu fui ver o Daft Punk, que foi genial, mas enfim, a máquina está lá paradinha do lado da minha cama a todo esse tempo.

Ela é um olho. Maior que o meu, porque imprime. Eu não queria ter uma máquina fotográfica, eu queria ter uma impressora. Eu queria ter um scanner de realidade, apontar pro lado que eu olho e, em alguns segundos, ver sair uma página preenchida com o meu olhar.

Eu sou um olho. Lembrei do penhasco, que também é um olho. Que, no sonho, me olhava, me admirava ou me reprovava, ou, ainda melhor, podia fazer até algumas reflexões se quisesse, mas preferia não gastar seu tempo com algo tão pequeno, e me deixava alí fazendo meu trabalho. No caso, dormir. Que é só uma ferramenta para acordar bem e continuar trabalhando. E agora eu nem digo mais o trabalho na agência, mas meu trabalho de célula. Mas disso eu também vou falar depois.

Porque eu adoro revistas. Eu amo revistas. Revistas boas, não Veja, Exame. Meu pai assinou Veja por uns 20 anos. Desde que eu nasci. Mas hoje, sem a Veja, minha vida continua a mesmíssima. Por mais que o seu pretensioso e irresponsável __palavra que eu não lembro o nome__ tente me convencer do contrário.

Com ou sem me deparar semanalmente com um mundo fim do mundo cruel e doloroso (seja dessa vez por guerras, fome, tecnologia mal usada, doenças ou burrice), minha vida continua a mesma. Com a mesma canseira do mundo, com a mesma quantidade de informações sobre esse mesmo mundo, com a mesma análise sobre tudo isso, com a mesma agenda setting. Se bem que hoje em dia, You Tube é muito mais agenda setting do que qualquer jornal, mas enfim, a Veja não me diz nada. Talvez ela diga pra alguém, mas não pra mim. A Trip fala comigo. Não falava antes e não vai falar quando eu mudar (e logo logo eu vou mudar), mas hoje ela fala. Eu amo ela só porque ela me ama primeiro. Nenhum exagero, a Trip é excelente, mas foi só a bola da vez, nenhuma grande coisa. Ela, com o sonho, a angustia, o Big Mac e as frases que formou o todo.

Há muito tempo eu já entendi que quem entende é o estômago. O cérebro só processa, e a gente não entende o que processa, senão computador entendia. A gente só entende o que sente. Ou seja, o estômago. Nessa, o coração é pra gente aquele gazinho que faz o cara do Old Boy dormir. O coração só serve pra amolecer a gente, fazer a gente esquecer pensamentos importante como um sedativo. Um dia eu escrevi isso no canto de um papel e, o que eu julgo inteligente, logo em baixo tinha um: foda-se. E foda-se mesmo, nenhuma evolução mental muda o fato de morrermos, e, mesmo gravando nosso nome na história, vamos ser comidos pelos bichos do mesmo jeito que qualquer um, e vai doer como doi em qualquer um, e vai parar de doer eternamente como para com qualquer um. Então foda-se mesmo, mais vale ser feliz do que ter razão.

Mas hoje meu namorado está no Rio, agilizei meu trabalho ontem a noite e, só pela falta do que melhor fazer, falo essas coisas.

Ser um centímetro mais alto ou mais baixo mudaria completamente quem você é no mundo. Porque somos apenas um olho. Temos pernas para nos levar para ver as coisas, temos braços para protegê-los (o primeiro lugar na hora de um susto) e para abrir cortinas. Todo o resto em função de faze-lo viver mais. Não, temos sim outras funções, mas de único mesmo no universo, só representamos mais um de tantos pontos de partida de uma coisa que não tem forma.

Pra isso eu comprei a polaroid. Pra scaniar a minha versão do mundo. Eu não sou só até o limite dos membros. Eu faço parte de um complexo de coisas. Se pudéssemos ver o ar, nossa percepção de corpo seria diferente. Mas, antes disso, uma célula tem sim o limite dela própria, mas ela se junta e forma um tecido, que tem seus limites mas formam um órgão, que tem seus limites mas que juntos formam um sistema…

Uma declaração relevante nesse ponto: o universo é infinito. Mas, melhor do que isso, o infinito existe. Existindo infinito, ele é tudo. Qual é o fim do infinito? Tem infinito pra todo lado. O infinito é pra baixo: sistemas, orgão, tecidos, células, átomas… E pra cima. Deus. Maior que a gente: deus. Só que, infinitamente, deuses tem deuses. O deus do elétron é o átomo. O deus do átomo é o elemento. O elétron até tem uma versão do que é o átomo, assim como nos uma de deus. Mas o eletron não tem nem idéia de quem é o elemento, nem sabe que ele existe. Assim como nós não vemos o que tem acima de deus. Se o eletron soubesse do elemento, ele seria átomo. Se nos soubéssemos do além deus, seríamos deus.

No final, o que torna o nosso deus nosso deus, é ele saber mais do que nós. O infinito é só um pensamento. Um não, uma cadeia deles.

A gente, como parte disso, só precisa cumprir nossa função. Nascer, crescer, aprender na escola, ter medo de fazer as coisas pela primeira vez, trabalhar e ser cobrado sempre mais, ganhar mais que muitos e menos que poucos, casar e ter filhos e ficar na merda pensando como vai criar, e amar muito eles, e ter cachorros, e enviar doações à África, e produzir alguma coisa relevante qualquer e ficar velho e poder falar besteira, e morrer. Não sei bem porque, pro mundo andar, pra tudo continuar vivo, sei lá. Um de nós morrermos é como uma abelha ou uma célula morrerem, é preciso isso pro todo continuar vivo.

Enfim, estamos muito abaixo de uma linha evolutiva infinita pra todos os lados. E perdemos tempo vangloriando nossos livros e computadores. Melhor que os que estão pra baixo, pelo menos. Ou não, ou não tem diferença nenhuma, porque a gente só usa a nossa inteligência e tecnologia no nosso limite, e limite é limite em qualquer das etapas desse pensamento.

Somos só um olho. Porque, assim como nós cientificamente já conseguimos saber quem são os orgãos e tecidos, enfim, a gente já organizou e pensou um pouco do que está embaixo, o que está em cima sabe de tudo que nos somos e pensamos e muito mais. Só o que temos de único no universo é nossa visão.

Porque, se você fosse um centímetro maior ou menor, veria tudo diferente. Você lembra a primeira vez que usou patins na infância, que viu as coisas mais altas, como era estranho?

Maior ou menor, tudo nos seria diferente. Tudo. A forma das coisas, o que é bonito ou não, a hora de dormir, o tempo gasto no banho, a fortuna ou o cheque especial, as notas na escola, a mulher, os filhos, o dia da morte. Tudo desse infinito eterno de coisa sem forma nos seria diferente, como é mesmo diferente para cada um dos mais diferentes moradores do universo.

Porque, afinal, o todo é sem forma. É legal observar como uma abelha vê, como um porco vê e como nós vemos. No fim, chegamos à clara conclusão: o todo não tem forma, é nosso olho que dá, e cada olho dá uma forma… E isso é divertido. Diversamente divertido.

Eu mesmo já comprei uma polaroid. Quero scaniar minha forma de enxergar o infinito. Quem sabe a de um porco ou uma abelha qualquer dia, ou da minha irmã mais nova que é mais alta que eu, ou de um anão, mas hoje a minha. Só pra mostrar pra outros, e dizer que cada um é diferente mesmo, não é teoria não. Mas, mais do que mostrar o diferente, queria mostrar o igual. Meu olhar para o infinito sem forma e a forma que eu dou a ele.

Na verdade, eu tenho meu olhar do sem forma e também a minha forma de me esconder dele, deixando rastros do que é meu. Porque ninguém, nem as formigas, querem ser sós. E isso é o mais engraçado dessa história toda.

Estamos envoltos do nada, do tudo que não é nada, porque não tem forma, e eternamente buscamos a gente mesmo pelo que relacionamos a nós. Família, gosto, estilo, salário, corte de cabelo, agências de viagem. Estamos o tempo todo criando molduras boas para nosso olho se sentir em casa.

Meu cantinho é como no filme Labirinto, aquelas velhas que carregam a casa nas costas. Eu me rodeio de mim. Eu nunca durmo sozinha, estou sempre acompanhada de canetas, mapas, cadernos, livros, roupas, sapatos, tudo milimetricamente mal arrumado para me abraçar de noite.

Enquanto eu abro algumas janelas para o mundo, fico bem amamentada do calor de existir, de ter passado, de ter planos, de ter algum tipo de raiz no sem forma. É por isso que eu amo revistas. Porque elas me arredondam. Elas são dos meus olhos, do meu ângulo, da minha forma. Elas são uma carta subliminar me dizendo que eu não estou sozinha, que eu não só existo como eu pertenço. Eu pertenço, meu, olha que ilusão mais apaixonante!

Enfim, a revista é o penhasco. E, quanto mais tempo eu passo olhando pra ela, mais ela me olha, e é só olhada que eu pertenço. Por isso que existe tanto na mídia essa necessidade de mostrar as pessoas, Andy Warhol disse que todos seríamos notícia nem que fosse por 15 minutos. Que não é nada, mas somos nós.

Abro a revista como páginas scaniadas do mundo, o mais próximo possível do que seriam as minhas. Textos, dados, fotos, resenhas, fofocas, propagandas legais, propagandas ridículos, ilustrações, compras, endereços… Sou eu me olhando sem parar. São meus 15 minutos de fama sem a necessidade da minha cara feia estampada. É o mundo dizendo que me quer. É o penhasco me chamando.

E me faz bem. Como a Veja deve fazer bem pra alguém. E todo que é scanner de alguém faz aquela pessoa feliz. Puta responsa da mídia, viu, a de mostrar cada mundo para seus habitantes, mostrar que eles pertencem. Pois é, enfim eu acho que o multiculturalismo que tá certo. Afinal, existe o tudo mesmo. E, se tudo existe, que conversem entre sí, se entendam, troquem e-mail, marquem encontros, se amem e foda-se.

3 Comments:

Blogger Duda Bandit said...

a dança sobre o abismo:jú.


te entendo... mas foda-se!


beijo daqui... é engraçado, vc sai da Ilha lendo A ilha... e não termina. Fala isso pra sua psi de 200 pila.

12:18 AM  
Blogger Sil said...

hahahahahahahahha
Adorei isso gente, mas o que vc tinha usado na hora que escreveu?
Outra coisa, se vc ama primeiro sua mãe, segundo o seu pai e terceiro a sua irmã as revistas não deveriam estar em quarto lugar? hehehehehehehehehe
Este comentário foi só para implicar amore!!!
Estou com saudade viu, e continuo pensando se vou te perdoar pela sua visita ao RJ sem me comunicar!!!
Beijos

12:58 AM  
Blogger Duda Bandit said...

quantos séculos... saudade virtual...


até...

saulo.

10:43 AM  

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