quarta-feira, março 29, 2006

reza

Esquinas da vida e eu de mini saia, dançando com cara de quem sabe bem o que esta acontecendo, saindo fora no outro dia como quem tenta esconder o tamanho que essas coisas têm. Mas isso era bem o começo, e o que podia ser escolha minha já não é tão flexível assim.

Eu me vendi, e foi bem barato. Não sei onde tudo começou, só me lembro de uma manhã, que já devia passar das três ou quatro e eu ainda e sutiã, enrolada nos lençóis com cheiros velhos daquele hotel porcaria, onde as infiltrações traziam o som dos carros e o sabor do sal. Um raio de sol nada poético batia na minha cara e o calor, o suor e o sangue escuro das minhas veias me exigiam mais um cigarro.

Minha sainha de oncinha com sapato cor de laranja foram mais um passo para não ter mais pra onde dar passos, cambaleante entre os fatos de tal forma que o caminho de volta era uma turva linha recortada. E foi assim mesmo que eu me levantei ainda indignada por não ter ninguém do meu lado pra me levar em casa, ou pelo menos pra me dizer que eu não estava assim tão ridícula de cabelo loiro despenteado e unhas até a metade vermelhas.

Nunca chorei muito por essas coisas, fora aquele choro dramático e desesperado, olhando-me em qualquer coisa espelhada para ver se estava bonita a maquiagem escorrendo, como um big brother que não sente dor alguma, mas que quer criar sua rede.

Sempre, pra ser sincera, olhei a minha vida como se não fosse propriamente minha, nem como se fosse realmente algo que existisse, mas como se fosse um filme do Almodóvar, ou livro do Nelson Rodrigues, com travestis e maquiagens borradas escorrendo pela cara, e camas vazias de manhã, e senhoras de véus pretos na cara, ajoelhadas nas igrejas e anjinhos com caras de mal.

Eu, sem a mínima cara de pau, coloco a sainha de oncinha ou mesmo o véu preto e me ajoelho junto com as velhas senhoras. Até um travesti já quis ser. E, pra quem tanto muda, ter uma fonte de renda fixa não é assim tão simples. Por isso que, administrando minhas várias vontades e assumindo vários papeis, me vendo baratinho, ando tontamente em cima do colorido sapato, freqüento nigthclubs fedorentos e assumo o personagem que mais agrada o telespectador, como uma obra de arte de trejeitos e olhares dos mais escrotos possíveis, mas que, na minha visão, são imprimíveis.

De manhã rezo uma ave maria para a mãe de todas putas.

1 Comments:

Blogger Sil said...

Ju que tudo!!!!!!

3:44 PM  

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